terça-feira, 7 de janeiro de 2025

"A vida presta" (Fernanda Torres)

Eu fiquei mexida com essa frase, e aparentemente muita gente também, vi muitas pessoas falando sobre isso: não porque eu não soubesse disso ou porque nunca tivesse pensado nisso, mas justamente pelo contrário.

Trabalhando com luto e tendo vivenciado as minhas próprias perdas eu sei o quanto pode ser difícil e doloroso viver. Não é fácil ser um ser humaninho neste mundão de meu deus. A realidade das pessoas pode ser muito desesperadora (perdi as contas de quantas vezes quis guardar alguns pacientes num potinho e levar pra casa pra cuidar), os recursos - pessoais e sociais - podem ser muito escassos, algumas pessoas vivenciam perdas importantes em sequência e é difícil encontrar forças e recursos para seguir em frente... 

A vida é cheia de dificuldades e o meu trabalho envolve trabalhar com muitas delas e lidar com uma impotência gigante diante de muitas coisas que não está em meu poder ou lugar mudar.

MAS

A vida tem momentos de poesia e de beleza. Tem momentos de superação, de encontro de sentido, de novas possibilidades...

Meu jeito de enxergar o mundo é um enxergar de possibilidades: nas pessoas, nas coisas, no mundo. Aqui em casa às vezes me acham ingênua, e pode ser mesmo que eu seja e está tudo bem para mim, mas eu não conseguiria viver esta vida se não acreditasse numa infinita possibilidade de superação, de reconstrução.

Vejo isso com frequência no meu consultório. No luto dos pacientes vejo o caminho que percorrem, no qual sou só testemunha: os recursos já estão lá, as ferramentas já estão lá. Eu vou ali segurando uma lanterna para que eles não fiquem no desespero da escuridão total, mas a travessia é deles. E é lindo, poético e profundamente emocionante quando eles chegam a um ponto em que não precisam mais da lanterna, em que reencontraram a própria luz.

E nem sempre é o luto que causa isso: nossa vida é cheia de momentos de incerteza, de medo, de questionamento e de ter que fazer escolhas, abrir mão de algumas coisas para conquistar outras. E embora racionalmente algumas escolhas possam parecer óbvias e simples, é preciso um tempo para que o coração acompanhe...

Meu trabalho é poder acompanhar os pacientes até o ponto em que eles consigam dizer que a vida deles presta: não é uma vida sem dor, sem medo, sem perda, sem dificuldade. É uma vida que tem tudo isso mas que tem alegria, amor, realização, que tem possibilidade: é na falta de enxergar a possibilidade que o desespero se instala.

Eu espero que você consiga dizer que a sua vida presta. Que ela tem possibilidade. Que ela tem sentido e vale a pena ser vivida. 

E se você não consegue enxergar isso, avalie se é porque este é um momento difícil, e aí fica mesmo difícil olhar pra isso, ou se você já se sente assim há algum tempo. Considere buscar ajuda: às vezes tudo que a gente precisa é de alguém que segure uma lanterna enquanto a gente encontra o próprio caminho.